Leilão presencial 1Fine ArtSessão · 18h00

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Parte do grande faqueiro do grão-duque Mikhail Pavlovich, filho do czar Paulo I da Rússia.

Estimativa €2.300–3.500

Descrição

Em prata dourada francesa (950/000). Modelo clássico francês, verso dos cabos com reserva oval com monograma coroado do grão-duque Mikhail Pavlovich (1798-1849).

Compreendendo seis colheres e seis garfos de resto.

Marcas de garantia e primeiro título em uso de 1819 a 1838 e marca do ourives François-Dominique Naudin.

(sinais de uso, pequenas amolgadelas)

1117 g

Texto

Mikhail Pavlovich (1798-1849), grão-duque da Rússia, foi o filho mais novo do czar Paulo I (1754-1801) e irmão dos czares Alexandre I (1777-1825) e Nicolau I (1796-1855). Com uma posição excepcional na corte imperial, promoveu numerosas encomendas de obras de arte. Em 1819, iniciou a construção de um palácio monumental em São Petersburgo, hoje sede do Museu Nacional Russo. Entre as encomendas destinadas ao palácio encontrava-se uma extraordinária baixela em prata dourada, adquirida em Paris, incluindo um vastíssimo faqueiro, de que fizeram parte estes talheres em venda na MATER.

Confiscada pelo governo revolucionário russo por volta de 1917, a baixela de Mikhail Pavlovich, incluindo o faqueiro, foi posteriormente alienada, entre as décadas de 1920 e 1940, no âmbito da política soviética de venda do património confiscado à antiga elite imperial.

Entre os compradores mais activos de importantes peças de ourivesaria ao Estado soviético encontrava-se, por exemplo, Calouste Gulbenkian (1869-1955). Também parte da baixela de Pavlovich chegou a Lisboa, adquirida pelo banqueiro Ricardo do Espírito Santo Silva (1900-1955) ao comerciante suíço Auguste Seiler (1879-1948) e à sua viúva, entre 1947 e 1949, tendo o banqueiro lisboeta reunido terrinas, castiçais, pratos e numerosos talheres.

Em 1954, Espírito Santo apresentou publicamente estas peças na exposição "Les Trésors de l'Orfèvrerie du Portugal", realizada no Musée des Arts Décoratifs de Paris entre Novembro de 1954 e Janeiro de 1955 (cat. 475-491). A exposição foi posteriormente apresentada em Lisboa, entre Abril e Maio de 1955, no recém-fundado Museu da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva (cat. 501-517). À época, julgava-se que o monograma da baixela se referia à mulher do czar Paulo I. Esta identificação viria, contudo, a revelar-se incorrecta, sendo hoje aceite que se trata da baixela de seu filho, o grão-duque Mikhail Pavlovich.

Ricardo do Espírito Santo Silva morreu poucos meses depois da exposição, em Novembro de 1955. Depois da sua morte, as suas peças da baixela Pavlovich foram notavelmente emprestadas pela viúva, Mary Cohen Espirito Santo (1903-1979) para o banquete oferecido à rainha Isabel II do Reino Unido (1926-2022) nos Paços do Concelho de Lisboa, a 19 de Fevereiro de 1957. Pouco depois, Mary Espírito Santo alienou diversas das melhores peças de ourivesaria da coleção do marido, entre as quais poderão ter-se encontrado estes talheres da baixela Pavlovich, agora apresentados pela MATER.

Peças deste faqueiro integram actualmente importantes colecções privadas e os acervos do Museu Hermitage, em São Petersburgo, e do Rijksmuseum, em Amesterdão.

A MATER agradece ao Doutor Hugo Xavier a ajuda na catalogação deste lote.

Proveniência

Mikhail Pavlovich (1798-1849), grão-duque das Rússia;

Provavelmente Alexander Lyudvigovich (1814-1884), 2º barão de Stieglitz;

Confiscado e vendido pelo governo soviético entre as décadas de 1920 e 1930;

Possivelmente Auguste Seiler (1879-1948), Vevey, Suíça;

Possivelmente Ricardo do Espirito Santo Silva (1900-1955), Lisboa;

Colecção privada, Lisboa;

Colecção privada, Porto.

Bibliografia

Catálogo da "Exposição de Ourivesaria Portuguesa e Francesa", FRESS, Abril-Maio de 1955. Lisboa: Oficina Gráfica Lda., 1955.

Catálogo da exposição "Les Trésors de l'Orfèvrerie du Portugal", Musée des Arts Décoratifs de Paris, Novembro de 1954-Janeiro de 1955.

Uma parte do faqueiro Pavlovich foi vendida, a 20 de Maio de 2015, pela Christie's (leilão 3730, lote 264).

A relação entre o que vemos e aquilo que conhecemos nunca está terminada. A forma como vemos as coisas é afetada pelo que conhecemos, ou por aquilo em que acreditamos.
John Berger

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