Leilão presencial 1Fine ArtSessão · 18h00

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Importante cadeira D. Maria I (1777-1816)

Estimativa €20.000–40.000

Descrição

Em nogueira com decoração entalhada e parcialmente dourada representando ramos e folhas de carvalho e de loureiro.

Pernas de formato piramidal invertido.

Tabela recortada e entalhada com medalhão oval ao centro faixeado a pau-santo e com trabalho de marchetaria em pau-santo e espinheiro representando as armas reais portuguesas.

Assento com pregaria forrado a colcha chinesa do séc. XVIII.

Placa de exposição com inscrição "PORTUGUESE ART EXHIBITION LONDON - OCTOBER 1955 Casal. Nr. 443".

Portugal, último quartel do século XVIII.

(tecido do assento em mau estado de conservação, cadeira com sinais de uso, pequenas faltas e defeitos, vestígios de xilófagos)

89x56x50 cm

Texto

Uma cadeira entre Portugal e Londres: um regresso à terra que a inspirou.

A cadeira oferecida a leilão pela MATER é representativa da notável renovação de gosto que aconteceu na criação de mobiliário, em Portugal, no último quartel do século XVIII. Neste período, reinado de D. Maria I, às formas sinuosas e de desenho mais fluido do rococó sucedeu uma crescente preferência pelo regresso à linearidade clássica e consequente geometrização das formas.

A conceção desta cadeira revela a assimilação de um gosto neoclássico cosmopolita, em diálogo com o melhor que circulava nas outras cortes e centros artísticos europeus. A estrutura de linhas elegantes, as pernas piramidais invertidas, a tabela recortada e o medalhão oval central aproximam-na do repertório neoclássico internacional, mais particularmente do gosto inglês associado a George Hepplewhite (c.1727-1786). A proporção da estrutura, o formato do espaldar em escudo e as pernas afuniladas remetem para os modelos que, a partir da década de 1770, contribuíram para transformar profundamente o mobiliário europeu. O vocabulário de Hepplewhite, divulgado sobretudo através de The Cabinet-Maker and Upholsterer's Guide, publicado postumamente em 1788, caracterizou-se por uma particular predileção por espaldares de formas ovaladas, em escudo ou coração, por estruturas de maior leveza e por uma decoração de inspiração neoclássica, frequentemente baseada em motivos vegetalistas. A ornamentação integra-se organicamente na estrutura do móvel, desde as pernas aos espaldares, onde a madeira é trabalhada em elaborados motivos entalhados e vazados. A leveza das formas resulta do equilíbrio entre curvas e retas, que se articulam numa dança harmoniosa. Este repertório, próximo do gosto desenvolvido no círculo de Robert Adam, rapidamente ultrapassou as fronteiras britânicas e encontrou eco nas principais casas aristocráticas e oficinas europeias. Em Portugal, estes modelos foram assimilados e reinterpretados, dando origem a peças de grande qualidade e personalidade. É precisamente nessa conjugação entre um modelo internacional e uma execução portuguesa que reside parte significativa do interesse da presente cadeira.

Em nogueira, apresenta uma decoração entalhada e dourada de ramos e folhas de carvalho e loureiro, motivos que assumem particular significado no contexto simbólico da peça. Associados desde a Antiguidade aos conceitos de força, glória, vitória e permanência, estes elementos vegetais integraram progressivamente o repertório alegórico e honorífico associado à representação do poder soberano. A sua presença, conjugada com as armas reais portuguesas, parece assim ultrapassar uma função meramente ornamental, contribuindo para construir um verdadeiro programa de exaltação régia. Esta leitura é particularmente interessante porque a evocação da Coroa não se concentra apenas no medalhão central. As armas reais, executadas em marchetaria, constituem o núcleo explícito da composição heráldica, enquanto os ramos de carvalho e loureiro se distribuem pela estrutura da cadeira, fazendo eco, através da ornamentação vegetal, da mesma ideia de poder, glória e dignidade régia. Deste modo, o vocabulário decorativo e a heráldica parecem funcionar conjuntamente, transformando um modelo de clara matriz inglesa numa peça de forte carácter representativo português.

A importância histórica da cadeira é reforçada pela sua participação na Exposição de Arte Portuguesa em Londres (800-1800), organizada por Reynaldo dos Santos na Royal Academy of Arts, entre outubro de 1955 e março de 1956. Integrada na Sala VI, dedicada ao século XVIII, a peça encontrava-se identificada pelo n.º 443:

“Um dos recantos mais sugestivos do reinado juntava num conjunto harmonioso vários espécimes, entre os quais uma das raras mesas neo-clássicas com a estampilha dum marceneiro português (Raposo), uma cómoda, um tremó, todas da Fundação R. Espírito Santo e vários modelos de cadeiras vindas de Queluz, ou cedidos pelos senhores Eng.º Henrique Chaves e Comandante Ernesto de Vilhena, com tapetes de Arraiolos, colchas indo-portuguesas e sobretudo pinturas. Completando a decoração distribuíram-se várias pratas, porcelanas e vidros da Vista Alegre e um busto da Rainha D. Maria I, do Rato, ao mesmo tempo que um friso de azulejo decorado ao gosto “Adam” servia de fundo a este recanto”.1

Neste recanto da sala podiam também ver-se quadros como o famoso retrato do conde de Farrobo e a alegoria da chegada de D. João VI, ambos da autoria de Domingos Sequeira, bem como retrato de Angelica Kauffman pelo pintor Vieira Portuense. A fotografia da sala permite reconhecer a cadeira no contexto desta importante exposição internacional, testemunhando a consideração de que já então gozava no panorama do património artístico português.

À data da exposição, como referido tanto no texto que a acompanha, como no livro Leitos e Camilhas Portugueses, de 1950, a cadeira encontrava-se na coleção do engenheiro Henrique Chaves (1886-1976), figura de relevo no colecionismo português. Desenvolveu parte significativa da sua carreira no setor ferroviário. Foi engenheiro dos Caminhos de Ferro do Estado e, posteriormente, diretor dos Caminhos de Ferro de Benguela, cargo que exercia já em 1929. Regressado a Portugal, fixou-se em Évora, onde viria a desempenhar um importante papel na vida pública e cultural da cidade. Foi Presidente da Câmara Municipal desta cidade entre 16 de dezembro de 1946 e 8 de setembro de 1952, período marcado por uma particular atenção à defesa e valorização do património histórico e artístico eborense. Colecionador e mecenas, Henrique da Fonseca Chaves manteve uma estreita relação com o ambiente cultural de Évora, tendo apoiado figuras fundamentais para o estudo e salvaguarda do património da cidade, entre as quais Túlio Espanca (1913-1993), autor de estudos sobre o património artístico e monumental eborense. Foi distinguido com o grau de Comendador da Ordem do Mérito Agrícola e Industrial.

Esta notável cadeira, agora apresentada a leilão pela MATER, percorreu um caminho singular entre Portugal e Inglaterra: concebida em Portugal à luz de um gosto inglês, regressaria a Londres quase dois séculos mais tarde como testemunho da originalidade com que o mobiliário português soube assimilar e reinterpretar os modelos do outro lado do canal.

Proveniência

  • Coleção eng. Henrique da Fonseca Chaves;
  • Por herança aos descendentes.

Bibliografia

NASCIMENTO, J. F. da Silva – Cadeiras Portuguesas/ Leitos e Camilhas Portugueses: subsídios para o seu estudo. Lisboa: Edição do Autor, 1950;

SANTOS, Reynaldo dos – Exposição de Arte Portuguesa em Londres (800-1800): Royal Academy of Arts, outubro 1955-março 1956. Lisboa: Imprensa Gráfica de Bertrand / Royal Academy of Arts, 1957.

Exposições

Exposição de Arte Portuguesa em Londres (800-1800): Royal Academy of Arts, outubro 1955-março 1956, nº 443.

A relação entre o que vemos e aquilo que conhecemos nunca está terminada. A forma como vemos as coisas é afetada pelo que conhecemos, ou por aquilo em que acreditamos.
John Berger

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