Leilão presencial 1Fine ArtSessão · 18h00

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Invulgar taça Gallé

Estimativa €20.000–40.000

Descrição

Em vidro em tons de verde, azul, castanho, amarelo-ocre e negro.

Decoração em multicamada e gravação a ácido representando cisnes numa paisagem lacustre.

Assinada.

França, Nancy, Établissements Gallé, após 1904.

(pequenos sinais de uso na base)

14x14,8 cm

Texto

A taça que sobreviveu às guerras

Em 1941, os alemães ocuparam a Grécia e ocuparam Atenas estabelecendo o seu quartel-general na residência dos Negrepontis, na Constitution Square, junto ao Palácio Real. A casa pertencia a Miltiadis Negrepontis, importante político e economista grego, que exerceu, entre outras funções, o cargo de Ministro das Finanças e Presidente do Comité Olímpico Grego entre 1918 e 1920.

Com a ocupação, a família foi obrigada a abandonar as principais divisões da residência e a instalar-se nas dependências dos criados, onde permaneceu durante cerca de dois anos. Sem água quente e praticamente sem conforto, enfrentou os rigorosos invernos de Atenas num período marcado pela escassez de recursos. Os mais pobres morriam de fome, enquanto os mais afortunados recorriam ao seu património para obter alimentos.

Foi neste contexto que a família procurou proteger os seus bens. No sótão da residência havia areia, utilizada para isolar do calor, mas foi nesse local que foram escondidas jóias e outros objetos de valor, entre os quais esta taça. Algumas peças acabaram por ser vendidas durante a ocupação, à medida que as circunstâncias o exigiam, mas outras conseguiram sobreviver àqueles anos.

Depois da guerra, a taça passou, por herança, para Eleni Negreponti (1896-1971), escritora e crítica literária, conhecida pelo pseudónimo Alkis Thrylos. Filha de Miltiadis Negrepontis, Eleni foi a segunda mulher do poeta, escritor, jornalista e diplomata grego Kostas Ouranis, pseudónimo literário de Kostas Niarchos, que exerceu entre 1920 e 1924 o cargo de Cônsul-Geral da Grécia em Lisboa.

Por sucessão, a taça passou depois para Maria Angele Santiago Niarchos (1920-2014), única filha do primeiro casamento de Kostas Ouranis com Manuela da Cunha Santiago.

Em 1998, Maria Angele decidiu deixar a Grécia e fixar-se em Lisboa. Foi então que parte dos objetos que conservava consigo atravessou o Mediterrâneo, trazendo para Portugal memórias de uma família e de uma cidade profundamente marcadas pela guerra.

Mais do que um objeto que atravessou gerações, esta taça é testemunho silencioso de um dos períodos mais difíceis da história recente da Grécia. Escondida durante a ocupação nazi, sobreviveu a esta, a uma guerra civil, à dispersão do património familiar e, décadas mais tarde, à mudança de Maria Angele para Lisboa. A sua história é, por isso, também a história de uma família que encontrou formas de preservar, mesmo em tempos de adversidade, quando o tempo e as guerras poderiam tâ-la feito desaparecer.

Proveniência

  • Miltiadis Negrepontis (1873-1951), importante político e economista grego, que

exerceu, entre outras funções, o cargo de Ministro das Finanças da Grécia e foi

Presidente do Comité Olímpico Grego entre 1918 e 1920;

  • Por herança, à sua filha Eleni Negreponti (1896-1971), escritora e crítica literária,

conhecida pelo pseudónimo Alkis Thrylos, segunda mulher de Kostas Ouranis (1890–

1953), pseudónimo literário de Kostas Niarchos, poeta, escritor, jornalista e diplomata

grego, que exerceu entre 1920 e 1924 o cargo de Cônsul-Geral da Grécia em Lisboa;

  • Por sucessão, Maria Angel Santiago Niarchos (1920-?), única filha do seu primeiro casamento com Manuela da Cunha Santiago (1890-1954);
  • Por herança a um familiar.
A relação entre o que vemos e aquilo que conhecemos nunca está terminada. A forma como vemos as coisas é afetada pelo que conhecemos, ou por aquilo em que acreditamos.
John Berger

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