
71
Interior de taberna com jogadores
Estimativa €400–600
70
Os Jogadores de Cartas
Estimativa €10.000–15.000
Óleo sobre tela.
Assinado e datado de 1643.
(reentelado, restauros)
105x129,5 cm
WILLEM VAN ODEKERKEN
Os jogadores de cartas
1643
Esta obra, assinada e datada, é da autoria do pintor neerlandês Willem van Odekerken (Nijmegen, c.1610 - Delft, 1677), conhecido pelas suas pinturas de género e naturezas-mortas. Ativo na cidade de Nijmegen (Güeldres), cedo se instalou na Holanda, com atividade registada na Haia (c.1631) e em Delft (c.1643). A data da pintura, 1643, marca um momento basilar do percurso profissional do artista, pois coincide com o ano da sua admissão na prestigiada Guilda de São Lucas de Delft, tornando-se oficialmente mestre pintor na cidade, com direito legal de vender as suas obras, receber alunos e exercer o ofício livremente. A partir deste ano, fixou a sua atividade artística e comercial em Delft, período que é considerado o mais produtivo e interessante da sua carreira. A evolução do mestre reflete a transição geográfica e de influências artísticas, moldando a sua identidade enquanto pintor. A produção de Odekerken distingue-se por uma qualidade técnica excecional, pelo naturalismo das composições e pela perícia técnica na captação de texturas e reflexos, embora o corpus de obras sobreviventes da sua mão seja muito reduzido - o que confere à tela agora em leilão na MATER especial interesse.
Willem van Odekerken, Odekercke ou Odekercken, faz parte do grupo de pintores neerlandeses que, no século XVII, favoreceram temas de carácter realista ou naturalista como assuntos pictóricos autónomos - deixando de ser apenas adereços, elementos de conteúdo simbólico, ou panos de fundo para outros assuntos. Especializou-se assim, sobretudo na Holanda, a pintura de género, que se revela, com total autoridade, uma das manifestações pictóricas mais brilhantes e abrangentes do seiscentos, ao aproximar-se da vida dos seus espectadores e clientes.
No século XVII, a Holanda deixou de integrar os Países Baixos - a sua independência já era um facto em 1579 e, depois, em 1585, passa a ser a capital hegemónica das Províncias Unidas (do Norte), Estado federado constituído pela Holanda, Frísia, Groninga, Güeldres, Overijssel, Utrecht e Zelândia. A riqueza e o poder holandeses encontram-se nas mãos de uma empreendedora e ativa sociedade burguesa que acredita no triunfo social e económico através do trabalho e do comércio. Diminui o mecenato da Igreja e o tema religioso - tratado por poucos pintores, como Rembrandt e Jan Lievens - e emerge uma clientela maioritariamente burguesa, que vê na pintura o melhor veículo artístico de afirmação da nova identidade nacional. Almeja-se contemplar e mostrar todos os aspetos, ambientes e cenas que retratam o seu estilo de vida próspero e confortável, bem como o amor pelos encantos da vida quotidiana e da natureza. Esta tendência, já iniciada no século XVI, não colidia com as diretrizes da Igreja protestante, promovendo o aparecimento e a consolidação de uma série de mestres especializados que deram resposta à enorme procura de pinturas de género.
Artistas de primeira ordem como Frans Hals, Rembrandt van Rijn e Jan Vermeer representam o cume da pintura holandesa no século XVII. Em torno deles surgiu e gravitou um número considerável de mestres que também produziram obra de extraordinária qualidade dentro do vasto leque de géneros e subgéneros praticados. Figuras decisivas como Bartholomeus van der Helst e Gerard Ter Borch, no retrato; Pieter de Hooch e Gabriël Metsu, nos interiores domésticos; Emanuel de Witte, Hendrik Cornelisz van der Vliet e Pieter Saenredam, nos interiores de igrejas; Jan Steen, Adriaen van Ostade e Pieter van Laer, na vida rural; Jacob van Ruysdael e Meindert Hobbema, na paisagem natural; Jan van der Heyden, na paisagem urbana; Willem Duyster, nas cenas de soldados; Simon de Vlieger, Jan van de Cappelle e Jan van Goyen, nas marinhas; Willem Kalf, Jan Davidsz de Heem, Pieter Claesz e Willem Heda, na natureza-morta; Dirck Hals nas “alegres companhias”, entre tantos outros.
Costuma-se afirmar que a introdução da “alegre companhia” na pintura de género holandesa se deve a Willem Buytewech (c.1591-1624), a partir da segunda década de seiscentos, sendo o seu contemporâneo Dirck Hals o melhor expoente da continuidade deste protótipo ou subgénero. Consiste na representação de grupos de pessoas, reunidas de forma descontraída num espaço interior, divertindo-se, usualmente sentadas a comer, a beber, a tocar música e, por vezes, em momentos de sedução, ou de jogo, em torno de uma mesa. Dos jogos de mesa e de tabuleiro da época, como o tric-trac, o jogo de cartas torna-se um dos temas pictóricos mais requisitados, pela eventual coexistência das componentes hedonista e moralizadora nas cenas representadas: o jogo de cartas como um dos prazeres terrenos e como vício; como momento de divertimento e como prenúncio da ruína económica. Frequentemente são mesmo mostrados ao espectador os truques ou batotas de forma explícita, embora nem sempre com a intenção de um duplo sentido moralizante. Existem antecedentes, com diferentes abordagens e propósitos, como os de Lucas van Leyden (Os jogadores de cartas, c.1520, Museo Thyssen-Bornemisza) e Caravaggio (Os Trapaceiros, c.1596-97, Kimbell Art Museum), cujo estilo teatral e inovador inspirou inúmeros artistas por toda a Europa, desde Georges de La Tour (O trapaceiro com o Ás de Trevos, c.1630-34) até aos caravaggistas de Utrecht. Na Holanda, mestres como Dirck Hals e alguns artistas mais jovens, como Pieter Codde, Willem Duyster, Judith Leyster, Jan Miense Molenaer e Willem van Odekerken, apresentam interessantes versões do tema.
É neste contexto que se enquadra a pintura agora apresentada à praça pela MATER. Odekerken, a partir do tema do jogo de cartas, combina os subgéneros da “companhia alegre” e da natureza-morta, demonstrando grande proficiência técnica, sobretudo nas superfícies têxteis, metálicas e de vidro. Estrutura a composição em torno de uma mesa contida, coberta por uma toalha verde, com um número reduzido de objetos sobre ela, bem escolhidos e posicionados, dos quais se destacam vários elementos: por um lado, os dois jogadores e um acompanhante - dois homens, um deles absorto nas suas cartas, e uma mulher que segura três Ases -; por outro, um luxuoso roemer de vinho e uma toalha branca amarrotada, que se estende sobre o lado direito da composição, onde foram registadas a assinatura e a data da obra. A informalidade e o desalinho da cena - patentes na postura descontraída das personagens, no olhar cúmplice da mulher, nas moedas empilhadas e no pão branco toscamente fatiado - remetem para uma interação humana teatralizada, evidenciando o naturalismo da fórmula compositiva, a preponderância da presença feminina na ação e a humanidade das personagens.
O jogo representado parece ser o romestecq, histórico jogo de cartas holandês para dois, quatro ou seis jogadores, distribuídos em duas equipas, cada uma com um, dois ou três jogadores. Sendo esse o caso, a mulher, ricamente vestida e engalanada de pérolas, estaria a revelar ao espectador as suas cartas vencedoras: um triche (conjunto de três ases, neste caso trevos/paus/fiori, pontas de lança/espadas/picche e diamantes/ouros/quadri). A ausência do Ás de copas/cuori poderá ser intencional. Por vezes, a presença de determinadas cartas do baralho, como na pintura atribuída a Johannes van Wijckersloot (O jogo de cartas no berço, 1643-1683, Rijksmuseum), contribui para a transmissão codificada de uma ideia ou de uma determinada alegoria.
Willem van Odekerken está representado em coleções particulares de todo o mundo, bem como em museus de renome, como o Rijksmuseum de Amesterdão e o Museu de Belas Artes de Budapeste. A conjugação invulgar entre raridade documental, mestria técnica e riqueza iconográfica faz desta uma tela de especial no contexto da pintura holandesa do Século de Ouro.
Fernando Montesinos
Conservador do Palácio Nacional de Sintra (PSML)
BIBLIOGRAFIA
ALPERS, Svetlana (1999): A arte de descrever. A arte holandesa no século XVII, São Paulo, Edusp-Editora da Universidade de São Paulo.
BÉNÉZIT, Emmanuel (2006): Dictionary of artists, v.10, Paris, Éditions Gründ.
MONTIAS, John Michael (1982): Artist and artisans in Delft. A socio-economic study of the seventeenth century, Princeton, Princeton University Pers.
SLIVE, Seymour (1998): Dutch painting 1600-1800, Yale, Yale University Press.
VAN DER WILLIGEN, Adriaan and MEIJIER, Fred (2003): A Dictionary of Dutch and Flemish Still-Life Painters Working in Oils 1525–1725, Leiden, Primavera Press.
A relação entre o que vemos e aquilo que conhecemos nunca está terminada. A forma como vemos as coisas é afetada pelo que conhecemos, ou por aquilo em que acreditamos.