
67
Vista de porto
Estimativa €300–500
66
"The Departure"
Estimativa €8.000–12.000
Óleo sobre tela.
Assinado.
76x100 cm
ALONSO PÉREZ pai, ou filho
The Departure
O apelido Alonso Pérez evoca três pintores espanhóis cuja presença na crítica e na historiografia da arte tem sido, até ao momento, discreta1: Mariano Alonso Pérez Villagrosa (1857, Zaragoza - 1930, Madrid) e os seus filhos, Carlos Alonso Pérez Berdugo (1882, Roma - 1949, Madrid) e Mariano Alonso Pérez Berdugo (1880 - 1964, Madrid).
Mariano Alonso Pérez Villagrosa realizou os seus estudos artísticos na Real Academia de las Tres Nobles Artes de San Luis, em Zaragoza, conciliando-os com os de engenharia. Mudou-se depois para Madrid, cidade onde figura no registo de copistas do Museo Nacional de Pintura y Escultura (actual Museu do Prado) e onde prosseguiu a sua formação na Escuela Especial de Pintura, Escultura y Grabado.
Em 1881 fixou-se em Roma, onde conviveu com outros artistas aragoneses e travou amizade com o pintor de género Ramón Alorda Pérez. Foi nesta fase romana que se familiarizou com a técnica da aguarela, produzindo obras que chegam a ser expostas em Madrid, Roma e Munique.
Em 1889, aproveitando a Exposition Universelle, instalou-se em Paris. Na capital francesa, entrou em contacto com a arte dos mestres pompier e com alguns dos seus máximos expoentes, entre os quais Ernest Meissonier (1815-1891), cuja influência é particularmente relevante para compreender a obra de Alonso Pérez. A sua ligação ao meio artístico de William Bouguereau (1825-1905) encontra também testemunho num desenho em que representa o mestre no seu atelier, enquanto este executava o célebre Nascimento de Vénus, de 1879.
Participante assíduo nas exposições dos salões parisienses, durante três anos manteve-se no número 33 da Avenue de l'Opéra. Os respetivos catálogos permitem acompanhar as sucessivas mudanças de morada na cidade e, simultaneamente, a crescente importância da sua atividade artística e comercial em Paris, acompanhada pela crescente procura da sua obra, sobretudo associada à representação de cenas galantes e de episódios da vida urbana, contemporânea ou inspirada em tempos passados. Merecem especial destaque as pinturas que evocam o Vieux Paris de entre os reinados de Louis XV e o Primeiro Império Francês, com figuras trajadas à moda setecentista em cenários urbanos de ruas calcetadas e arquiteturas de sabor medieval, anteriores à revolução industrial e às reformas urbanísticas do barão Haussmann (1809-1891). São pinturas de costumes elegantes e vivas, de gosto revivalista, tributárias dos mestres da pintura rococó francesa.
Em Paris, Mariano Alonso Pérez Villagrosa diversificou a sua produção, colaborando como ilustrador em célebres publicações periódicas, como a revista espanhola Blanco y Negro, a francesa Le Figaro Illustré, ou a norte-americana Vogue.
Uma das facetas menos conhecidas do pintor e engenheiro aragonês é a de empresário. Foi inventor e promotor do espetáculo circense "Autobólido", que fez furor em capitais como Paris, Lisboa e Nova Iorque. Apresentada pela primeira vez no teatro Folies Bergère de Paris, em 1904, esta atração foi anunciada como o primeiro salto mortal em automóvel da história, numa sala ricamente decorada e iluminada a eletricidade. No interior do bólido – que percorria catorze metros realizando uma parábola antes do salto mortal – viajava sempre uma conhecida acrobata e atriz de circo, Mauricia de Thiers (1880-1964). Ao ser um espetáculo deveras arriscado, Mauricia acabou por sofrer um grave acidente em Lisboa, em 1906, na presença do rei D. Carlos (1863-1908).
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o pintor regressou a Espanha, fixando residência em Madrid a partir de então.
Os seus filhos, Carlos e Mariano, seguiram igualmente a carreira artística, embora a respetiva atividade permaneça relativamente pouco estudada. Instruídos e influenciados pelo pai, desenvolveram um estilo muito próximo do seu, sobretudo nas fases iniciais das carreiras, a tal ponto que, por vezes, é difícil distinguir a autoria de algumas pinturas, atendendo à proximidade formal e temática com a obra paterna. A dificuldade é acrescida pela semelhança entre algumas das assinaturas utilizadas pelos três artistas. A presente pintura, assinada "Alonso-Perez", constitui um desses casos, não sendo possível, com base nos elementos atualmente disponíveis, determinar se foi executada pelo patriarca ou por um dos seus filhos.
A obra agora oferecida à praça pela MATER insere-se na pintura de género desenvolvida pela família Alonso Pérez, particularmente associada à projeção internacional alcançada pelo patriarca entre finais do oitocentos e o início do século XX. Na cena representada, um jovem vendedor de flores aproxima-se de um grupo de homens e mulheres, elegantemente vestidos, à saída de um edifício de feição classicista, engalanado para uma ocasião festiva. A decoração da fachada, com festões de tecido vermelho com franjas douradas, poderá sugerir a celebração de um casamento civil2. Em primeiro plano, a criança que transporta as flores testemunha o acontecimento, aguardando o momento certo para tentar vender a sua mercadoria. A presença deste vendedor ambulante introduz uma segunda camada narrativa e estabelece um contraponto entre o grupo dos adultos e a figura infantil, envolvida numa atividade comercial, articulando a paisagem citadina, a composição humana e os pormenores narrativos representados. A obra constitui, assim, um exemplar representativo da produção pictórica da família Alonso Pérez, retomando as chamadas petites histoires, enquadradas por profusas molduras entalhadas e douradas neorrococós, que reforçam o carácter decorativo destes quadros. Em vez dos grandes temas históricos ou mitológicos, estas obras ofereciam uma visão idealizada e pitoresca do quotidiano.
Fernando Montesinos
Conservador do Palácio Nacional de Sintra (PSML)
BIBLIOGRAFIA
BÉNÉZIT, Emmanuel (2006): Dictionary of artists, v.10, Paris, Éditions Gründ.
FIGOLS, Paula (dir.): La seducción de París. Artistas aragoneses del siglo XX, Zaragoza, Ibercaja. Catálogo da exposição patente no Museo Camón Aznar, Zaragoza, de 26 de janeiro a 18 de março de 2005.
GARCÍA LORANCA, Ana e GARCÍA-RAMA, J. Ramón (1992): Pintores del siglo XIX. Aragón, La Rioja y Guadalajara, Zaragoza, Zaragoza, Ibercaja.
GONZÁLEZ, Carlos e MARTÍ, Montse (1989): Pintores españoles en París (1850-1900), Barcelona, Tusquets Editores.
JUBERÍAS GRACIA, Guillermo (2020): Entre la bohemia y el salón. París y la pintura de género aragonesa (1870-1914), Zaragoza, Rolde de Estudios Aragoneses.
LOMBA SERRANO, Concha (dir.): Roma y París, horizonte de los artistas aragoneses (1875-1920). Colección Francisco Palá Laguna, Zaragoza, Prensas de la Universidad de Zaragoza. Catálogo da exposição patente no Edificio Paraninfo da Universidad de Zaragoza, de 22 de abril a 18 de julho de 2026.
A relação entre o que vemos e aquilo que conhecemos nunca está terminada. A forma como vemos as coisas é afetada pelo que conhecemos, ou por aquilo em que acreditamos.