
79
Madame Breton (1809-1895)
"La Jeune Courtisane"
Estimativa €600–900
78
Estimativa €1.200–2.000
Par de óleos sobre tela.
Escola inglesa, possivelmente segundo Thomas Hickey, séc. XIX.
(pequenos restauros)
38x30,5 cm
Os Peters:
Da Prússia para Lisboa, retratos dos fundadores de uma dinastia.
O par de retratos que aqui se apresenta - a óleo sobre tela, sem assinatura nem data - pertence a uma tipologia codificada do retrato europeu do último quartel do século XVIII: meio corpo, a três quartos, inscrito em reserva oval fingida sobre suporte rectangular, recortado contra um fundo de paisagem. Concebidos notoriamente como pendants, os dois quadros dialogam entre si na atitude dos representados, na escala e na construção do fundo, obedecendo à gramática do retrato de representação burguês e diplomático coevo1, na órbita de modelos referenciais germânicos: pense-se na galeria de negociantes e letrados retratada por Anton Graff (1736-1813) e nos retratos de Jens Juel (1745-1802), em cuja produção o formato oval (aqui em fingido) se generaliza a partir de 17702. O que singulariza, porém, o par de retratos agora oferecido para venda na MATER não é apenas a qualidade e eficácia da fórmula compositiva, mas a possibilidade (rara em retratos chegados ao mercado) de restituir aos rostos uma identidade, uma biografia e um lugar concreto na história económica e social da Lisboa pós-pombalina.
Essa restituição começa, desde logo, nos próprios objectos, fonte primeira e última de qualquer estudo de história da arte. Ambos os quadros conservam, na grade, inscrições manuscritas que presumivelmente identificariam os retratados: «Trisavô / Christiano Daniel von Peters (Barão de Peters)» e «Trisavó / Francisca Peters (Baroneza de Peters)». Outra chave: numa árvore genealógica, também manuscrita, na grade do retrato masculino, quando posta em diálogo com o grau de parentesco (trisavô e trisavó) declarado naquelas inscrições.
O último nome referido na árvore - que supomos corresponder ao da sua autora - é o de Maria Leonor Munró dos Anjos Diniz (1872-1940), filha de Alice Joyce Munró (1850-1934) e Policarpo Pecquet Ferreira dos Anjos (1845-1905), accionista fundador do Banco Lisboa & Açores (1875), par do reino (1890) e grande proprietário industrial3. Ora, se os retratados são os seus trisavós, estes só podem ser, por via materna, Christian Daniel Peters (1744-1821) e Anna Pelican, casados em Lisboa, no ano de 17784. As inscrições encerram, de resto, dois equívocos reveladores dos mecanismos da memória familiar: o título de Barão de Peters pertenceu não ao retratado, mas a seu pai, Christian von Peters, oficial palatino na Corte húngara dos Habsburgo5, natural de Wismar (Mecklemburgo), cidade hanseática na costa do mar Báltico, controlada politicamente pela Suécia desde o fim da Guerra dos Trinta Anos (1648). Ao fixar por escrito, mais de um século depois, a identidade dos antepassados, a tradição familiar transferiu para o filho - homónimo do pai - a dignidade nobiliárquica deste, num deslizamento onomástico frequente neste género de inscrições tardias. Quanto ao nome «Francisca» atribuído à retratada, não corresponderá a um aportuguesamento do nome de Anna Pelican, mas a um equívoco gerado pelo nome da filha do casal, Frances.
Liberto do título que a memória lhe atribuiu, o retratado nada perde em estatura histórica. Natural de Lübeck, Christian Daniel Peters foi um próspero negociante de origem hanseática e cônsul-geral do Reino da Prússia em Lisboa, onde estabeleceu a sua actividade comercial entre o final do século XVIII e o início do século XIX. Após a morte do seu parceiro de negócios, Johann Thomas Stattmiller, em 1787, Peters assumiu a condução das relações consulares prussianas em Portugal, posto que manteve num período historicamente conturbado6. Tenhamos presente que a legação em Portugal pertencia às representações de segunda ordem da Prússia na Europa7: na ausência de relações políticas relevantes entre os dois reinos, a actividade da legação concentrava-se, sobretudo, em assuntos de natureza económica e mercantil. Apesar disso, o consulado em Lisboa (criado em 1711) é o primeiro estabelecido pelo Reino da Prússia no continente europeu8. A posição de cônsul fez de Peters uma figura relevante na influente comunidade de comerciantes estrangeiros radicados na Praça de Lisboa, sendo conhecidos - nos Arquivos Secretos do Estado Prussiano - os seus relatórios sobre a actividade de casas comerciais prussianas e a movimentação mercante do porto de Lisboa9. Os negócios mercantis e consulares são, aliás, indissociáveis; e não por acaso: ao contrário do restante pessoal diplomático, os cônsules prussianos eram recrutados entre mercadores e negociantes há muito estabelecidos nos portos de acolhimento, que se candidatavam ao posto, em boa medida, para escapar aos impostos, taxas e direitos que oneravam os comerciantes estrangeiros10. Peters é um caso exemplar. Nas décadas de 1780-90, actuou como procurador de grandes banqueiros e negociantes de Amesterdão - como Benjamin Cohen (1726-1800) - estando directamente envolvido na compra de diamantes junto da Real Extracção dos Diamantes, administrada pela Coroa portuguesa11. O cerne dos seus negócios residia, porém, na navegação internacional: aproveitando a posição geoestratégica de Lisboa como grande entreposto entre o Atlântico e as rotas comerciais do norte da Europa, Peters importava matérias-primas (das quais Portugal criticamente dependia para sustentar o esforço naval no Atlântico) e produtos manufacturados (têxteis, vidros, ferragens), reexportando-os para mercados setentrionais através da sua rede em Amesterdão, Hamburgo e Lübeck.
Entre 1801 e 1803, período em que lhe foram confiados os arquivos da chancelaria deixados pelo Barão von Schladen, enviado extraordinário e ministro plenipotenciário, Christian Peters foi elevado à posição de Chargé d’Affaires, tornando-se o representante diplomático máximo da Prússia em Portugal12. Nesta qualidade, Peters testemunhou, em Lisboa, a transferência da corte e da família real portuguesa para o Rio de Janeiro e a entrada do exército francês, comandado por Junot (1771-1813). Foi dos poucos diplomatas de nações inimigas da França a manter-se em funções na capital, um estatuto que, aliado ao ascendente que auferia na comunidade germânica, se revelou fundamental na protecção dos bens mercantis, armazéns e habitações dos comerciantes protestantes, das requisições do exército invasor13. A missão diplomática prussiana só viria a encerrar (transferindo-se para o Rio de Janeiro14) com a dissolução do Conselho de Regência e o estabelecimento formal do protectorado francês, a 1 de Fevereiro de 1808. Deste período ainda se conservam, em Berlim, os relatórios de Peters sobre a ocupação francesa de Lisboa e o bloqueio naval britânico imposto à barra do Tejo, sob o comando do almirante Sidney Smith (1764-1840)15. Sabe-se que Peters viria a falecer em 1821 e que o seu funeral atraiu um grande cortejo de estrangeiros e portugueses «a acompanhar o corpo deste nobre e estimado homem até ao seu local de repouso» no Cemitério dos Ingleses, à Estrela, que servia a comunidade protestante de Lisboa antes de a congregação luterana alemã dispor de cemitério próprio16.
Do lado feminino do par, a biografia de Anna Pelican é sumária (como a de tantas mulheres suas contemporâneas, que atravessaram a História incógnitas), embora nos baste como testemunho do cosmopolitismo familiar: o seu pai, Robert Pelican (c. 1715-1788), era natural da Irlanda e sua mãe, Ângela Fortunata Falchi, era natural de Cremona, na Lombardia. Anna e Christian Peters casaram em Lisboa, indiciando que Anna, mesmo sendo filha de estrangeiros, poderá ter nascido em território português17. Este casamento, em 1778, ilustra os cruzamentos culturais e a prática de alianças familiares entre a burguesia mercantil estrangeira na Lisboa setecentista. Desta união nasceram seis filhos: Mary (n. 1777), Anna (n. 1779) e Johann (n. 1781) – que supomos terem morrido em crianças -, mas também Elizabeth (n. 1783), Christian Daniel (n. 1783) e Frances (n. 1789), que sobreviveram à infância. Dois acabaram por fazer casamentos importantes: em 1810, Christian Daniel casou com Maria Isabel Scholtz (n. 1787), filha de um abastado comerciante (também de origem hanseática) e vice-cônsul da Dinamarca, há muito estabelecido na ilha de São Miguel18; e, em 1817, Frances casou com Domingos Grove Joyce (n. 1786), homem de negócios ligado ao comércio transatlântico, que operou em Lisboa integrado na influente Feitoria Britânica19, vindo a ser perseguido politicamente durante a Guerra Civil (1832-1834), como apoiante da causa liberal20. Do enlace entre Domingos e Frances Peters nasceria, em 1821, uma única filha: Maria José Peters Joyce, casada, em 1844, com Charles Alexander Munró (1819-1900)21. Foram pais, entre outras filhas, de Francisca Joyce Munró (1846-1926), que passaria à História da Arte portuguesa como Fanny Munró. Pintora naturalista e discípula de Silva Porto (1850-1893), estreou-se em 1887, na 14.ª Exposição da Sociedade Promotora das Belas-Artes, com paisagens e naturezas-mortas, movendo-se nos círculos de Josefa Greno (1850-1902), José Malhoa (1855-1933) e Columbano (1857-1929), que a retratou em 189822. Os nossos retratados são, por isso, bisavós da artista.
Regressemos às telas. Embora nenhum dos retratos se encontre assinado ou datado, a indumentária e o penteado apontam para uma execução (sob encomenda?) no último quartel do século XVIII. No retrato de Peters, a cabeleira empoada de canudos laterais, o jabot, os punhos de renda e, sobretudo, a casaca com gola subida - em tipologia que se generaliza a partir de c. 1770-179023 - situam o retrato neste arco cronológico, aliás compatível com a data de casamento (1778) dos retratados. No retrato de Anna Pelican, tanto o vestido como o penteado obedecem à mesma cronologia.
Atente-se, de igual modo, na iconografia. Ao contrário do retrato da mulher, que não exibe quaisquer atributos, o objecto que Peters sustém é um pequeno livro encadernado, escolha do artista ou do encomendador que nos parece particularmente eficaz na construção da efígie de um comerciante de grosso trato, sinalizando serviço e aplicação aos negócios, sem as pretensões aristocráticas que uma coluna (habitualmente em segundo plano), espada ou insígnia poderiam transmitir. Na economia do retrato de Antigo Regime, convirá recordar que o atributo iconográfico raramente é um pormenor neutro: é ele que converte a efígie individual em enunciado social, declarando ao observador não apenas quem o retratado é, mas também o que faz e como deseja ser lembrado24. O retrato de Christian Daniel Peters é, assim, a declaração figurativa de um homem que deve a sua posição ao mérito, ao trabalho e à rede social em que se integrou - não ao sangue - e que assim quis ser visto.
É esta dupla condição (documento e imagem) que confere a este par de retratos o seu interesse maior. Neles se cruzam o grande comércio do Atlântico e do Báltico, a diplomacia de um reino europeu - a Prússia - na Lisboa das invasões napoleónicas e uma genealogia que desemboca, de modo surpreendente, numa pintora do naturalismo português. Ao transitar da esfera doméstica (onde foram guardados e anotados) para o olhar do público, Christian Daniel Peters e Anna Pelican iniciam um novo capítulo da sua biografia material, agora como testemunhos expressivos do cosmopolitismo das comunidades de mercadores estrangeiros residentes na Lisboa pós-pombalina.
Sérgio Monteiro Abrantes
Conservador de escultura do Palácio Nacional da Ajuda
A relação entre o que vemos e aquilo que conhecemos nunca está terminada. A forma como vemos as coisas é afetada pelo que conhecemos, ou por aquilo em que acreditamos.